Variedades

Primeira edição da Bíblia toda traduzida do grego para o português começa a ser lançada no Brasil

O tradutor português Frederico Lourenço, que se dedica a
traduzir a Bíblia do grego para o português

RIO – Os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, presentes
no Novo Testamento, foram escritos originalmente em grego.
Apesar da onipresença da Bíblia em lares e igrejas brasileiras
— é o livro mais lido no país, segundo a pesquisa “Retratos da
Leitura”, realizada pelo Ibope Inteligência para o Instituto
Pró-Livro —, as edições do Brasil, e também de Portugal, foram
traduzidas de várias línguas diferentes. A principal fonte foi
o latim, graças à difusão ao longo de séculos pela Igreja
Católica. Agora, chega às livrarias brasileiras, pela Companhia
das Letras, uma tradução direta do grego feita pelo português
Frederico Lourenço, professor de Estudos Clássicos, Grego e
Literatura Grega da Universidade de Coimbra. O seu interesse
pela Bíblia é “histórico-linguístico, e não teológico”, afirma
ele, que já traduziu os outros livros do Novo Testamento e e
está trabalhando no Velho Testamento. Esses volumes também
serão lançados no Brasil.

Em entrevista ao GLOBO, o professor conta que decidiu encarar a
empreitada após escrever “O livro aberto”, de ensaios sobre a
Bíblia. Essa obra será lançada pela editora Oficina Raquel
durante a 15ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty
(Flip), em julho, da qual Lourenço será um dos convidados. Ele
destaca que a nova tradução dá a oportunidade de ler um texto
mais próximo da intenção original dos seus autores.

— Achei que faltava em português uma tradução feita para ser
lida sob a perspectiva da história do primeiro cristianismo e
não à luz das igrejas que vieram depois — explica. — Após ter
decidido traduzir o Novo Testamento, decidi traduzir também o
Antigo Testamento grego, por esse ser a Escritura judaica lida
pelos primeiros cristãos.

A Bíblia grega nasceu em Alexandria, no Egito. Qual foi
o contexto histórico que levou a essa empreitada, que teria
envolvido cerca de 70 tradutores?

Não se sabe ao certo como nasceu a tradução do Antigo
Testamento grego. A lenda dos 72 tradutores não passa disso
mesmo, de uma lenda; mas o fato de ter sido necessário traduzir
o Antigo Testamento hebraico para grego mostra a crescente
helenização da cultura judaica em toda a zona oriental do
Mediterrâneo. A Escritura não foi só traduzida para grego para
que pudesse ser lida por não judeus; foi sobretudo para ser
lida por judeus que já eram falantes de grego como língua
materna.

O senhor aponta indícios de que os quatro evangelistas
eram leitores da Bíblia grega. De que maneira isso pode ter
influenciado a redação dos seus evangelhos?

Nota-se a presença da Bíblia grega em cada página do Novo
Testamento, na forma como a Escritura judaica (o Antigo
Testamento) é citada e também interpretada. O caso mais
evidente que todos conhecem ocorre no primeiro capítulo de
Mateus, com a citação de Isaías sobre a virgem que engravidará
e dará à luz um filho. A palavra “virgem” não está na frase
hebraica de Isaías; está só na tradução grega de Isaías. Os
exemplos são incontáveis. Também nas cartas de Paulo vemos em
cada página citações da Bíblia grega que têm uma fraseologia
diferente da que conhecemos do texto hebraico.

O conceito de autoria dos evangelhos é bastante
controverso. Devemos acreditar que os quatro evangelistas foram
quatro pessoas diferentes?

Essa é uma questão que, ao fim de quase 2000 anos, continua em
aberto. Eu penso que não é possível sabermos ao certo quem
escreveu os quatro evangelhos. Para quem lê o texto em grego
fica claro que Mateus e Lucas se inspiraram em Marcos, e que
João pertence a uma tradição independente. Também não sabemos
os nomes reais dos autores, porque nenhum evangelho está
internamente assinado, como é o caso das cartas de Paulo ou do
livro de Apocalipse. No caso do evangelho de João, custa-me
acreditar na autoria coletiva, dado que o texto tem uma
coerência estilística muito coesa, tirando o episódio da mulher
adúltera e o último capítulo.

Toda tradução carrega uma dose de mediação. A Bíblia
grega é capaz de nos aproximar de um texto dos evangelhos mais
próximo de como eles foram escritos?

É o texto grego do Novo Testamento que nos leva mais perto das
intenções da sua escrita. Por isso não concordo com Bíblias
traduzidas do latim, do inglês ou do francês, como é o caso de
muitas que circulam em língua portuguesa. No caso do Novo
Testamento, temos sempre de partir do texto grego. No entanto,
é impossível recuperar o texto original tal como ele foi
primeiramente escrito, porque os manuscritos mais antigos que
temos no Novo Testamento completo são do século IV. E depois
disso há milhares de manuscritos até ao século XV, e todos
apresentam diferenças.

O senhor enumera uma série de contradições entre os
quatro evangelhos em episódios fundamentais da história de
Jesus. Há uma explicação para a Igreja manter essa diversidade
de versões?

Quando nós comparamos os evangelhos canônicos com os apócrifos,
não temos dificuldade em entender a importância que foi dada a
Mateus, Marcos, Lucas e João. Estão numa categoria conceitual e
literária muito acima de qualquer evangelho apócrifo que tenha
chegado até nós. Não se sabe a razão da manutenção dos quatro
evangelhos em vez da opção pela fusão dos quatro num só, como
fez Taciano, mas é algo que deve inspirar a nossa gratidão. Uma
das maiores riquezas do cristianismo é termos esses quatro
retratos diferentes de Jesus. O que me parece errado é
desvalorizar as diferenças e fingir que os quatro dizem a mesma
coisa.

Você poderia falar sobre o “O livro aberto”, que será
lançado em julho, na Flip?

Nesse estudo procuro colocar as questões que se levantam quando
lemos a Bíblia de uma perspectiva crítico-histórica, sem
recurso à interpretação teológica. O que proponho é que as
incoerências são uma característica compreensível, dado o fato
de o Livro constituir a reunião de muitos livros escritos por
pessoas diferentes em épocas diferentes. Proponho linhas de
leitura para quem se interesse pela Bíblia fora do âmbito
eclesiástico, seja ele católico ou protestante.

Afinal, a Bíblia que se lê na maioria dos lares e
igrejas do Brasil está errada?

Essas Bíblias (traduzidas de outras línguas) não trazem
diferenças na trama, mas trazem no pormenor. A melhor tradução
será sempre aquela que leva o leitor a entrar nas complexidades
e nos pormenores do grego e do hebraico. Uma tradução da Bíblia
que fomente a ilusão de que o texto não levanta problemas
linguísticos não é, na minha opinião, uma boa tradução. Aceito
que, para leitura na igreja, se queira uma Bíblia traduzida de
modo a facilitar o entendimento oral do texto. Mas depois em
casa as pessoas podem interessar-se por conhecer os problemas
que estão por trás das palavras que ouviram na igreja. É nesse
sentido que eu pretendo contribuir para uma leitura crítica e
informada da Bíblia.

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